Choque cultural inexplicável!
De longe, Havana parece uma grande fazenda. Vindo do aeroporto, ao se aproximar da cidade, vao aparecendo os traços do orgulho socialista, com murais dos "camaradas" Che, Castro e Camilo, com frases que propagam a revolucao e pregam a defesa da soberania e da liberdade contra o poderio do "império".
Chegamos na casa do Nelson, aonde tinhamos reserva confirmada desde o Brasil. Ao chegar, surpresa! Nossos quartos já estavam ocupados por dinamarqueses! O Erik (que achávamos que era o Nelson, até descobrir um dia depois que o Nelson estava viajando) nos propos nos dividir nas casas vizinhas as suas, da Aurora e do Rene. Tirando a sorte no 2 ou 1, as meninas ficaram juntas num quarto bem bonitinho na casa da dona Aurora e do Julio. Já eu sobrei na masmorra...quando vi meu quarto, quase chorei! Pequeno, com teto baixo, com mal cheiro e sem janela! Surtei, e tava quase mudando de casa para outra que ficava mais longe, a dois quarteiroes dali. Sorte que a Li se dispos a trocar por essa noite comigo, e no final tudo deu certo.
Essas casas ficam na parte
muito pobre da cidade, com prédios em péssimo estado de conservaçao, alguns até abandonados. Eu fiquei muito chocada com tudo isso; claro que esperava uma realidade diferente, mas nada se compara com o que vi. Tirando a parte turística, por todo o lado há pobreza e sujeira. O choque foi potencializado pela realidade da viagem: havíamos acabado de chegar do glamour de Cancun, aonde pagamos U$S55 por uma balada "barra libre" (open bar), e chegamos a um lugar aonde a populaçao recebe menos que isso de salário mensal...
Os donos das 3 casas (Erik, Aurora e Rene) foram extremamente simpáticos e nos deram várias dicas sobre o local. Trabalhar com o turismo é um ótimo negócio, e esse é o "trabalho" deles: receber hospedes em suas casas.
O Jorge (amigo da Maria, que é amiga da Li) veio nos buscar para um passeio aonde finalmente vimos a parte bonita e restaurada no centro de Havana Vieja. Essa parte que está aos poucos sendo restaurada com o dinheiro do turismo é realmente muito bonita! Um choque, novamente, só que desta vez positivo. Uma cidade que nao pára de surpreender! Havana deve ter sido uma cidade maravilhosa nos anos 50, só que infelizmente a cidade parou aí...a falta de investimento desde o colapso da URSS fez com que as construçoes e os carros nao evoluissem, e hoje tudo está caindo aos pedaços. Conversando com o Jorge, pudemos entender melhor vários detalhes da cultura, sociedade, economia e política cubanas e perceber que nao há escolhas fáceis e caminhos óbvios para o futuro deste país. O descontentamento com o governo cubano é altissimo, por mais que o governo diga o contrário, e quem gosta do Fidel geralmente sao os mais velhos, que presenciaram os anos pré-revolucao, aonde havia taxas de analfabetismo e de moradores de rua altissimas. Os jovens, que nasceram em uma realidade mais amena propiciada pelo socialismo, sao os que mais sentem o impacto negativo de ter que se privar da sua liberdade e dos demais direitos que o capitalismo proporciona. Todos admiram o Che Guevara, que foi realmente o grande herói da revoluçao. Mas nao lutam contra o governo, por comodismo ou por medo mesmo, já que a pena para quem falar mal do governo é pior do que a pena para quem matar outra pessoa!
Enfim...mil coisas para escrever sobre tudo isso! Cuba é realmente uma experiencia de vida! Quando voltar para o Brasil vou organizar melhor as idéias e colocar aqui.
Por enquanto, estamos em Varadero, em um resort all-inclusive, curtindo uma ilha de capitalismo no meio de um mar de socialismo, aproveitando o final desta viagem maravilhosa!